Os bancos têm tanto interesse em receber quanto você tem em pagar, pois uma dívida não paga representa prejuízo para a instituição. Isso cria um cenário onde a negociação é possível e incentivada. Saiba mais.

Negociação de Dívidas Bancárias

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│Preparação

Antes de ligar para o banco, você precisa estar preparado. Ir para uma negociação sem informações é como ir para uma batalha sem espada e escudo.

Orçamento Detalhado: Saiba exatamente quanto você ganha e quais são seus gastos fixos e variáveis.

Capacidade de Pagamento: Defina, com base no seu orçamento, qual o valor máximo de uma parcela que cabe no seu bolso sem comprometer sua subsistência. Nunca aceite um acordo que você não tem certeza de que pode cumprir.

Conheça a Dívida em Detalhes: É aqui que entra a necessidade de solicitar os documentos corretos, como veremos a seguir. Você precisa saber o valor original do débito, a taxa de juros aplicada, os encargos, o que já foi pago, etc.

Conheça Seus Direitos: O Código de Defesa do Consumidor (CDC) proíbe práticas de cobrança abusivas. Você não pode ser ameaçado, constrangido ou exposto ao ridículo. A cobrança deve ser feita de forma privada e respeitosa.

│O Demonstrativo de Evolução da Dívida

Este é, sem dúvida, o documento mais importante para quem quer entender e questionar uma dívida bancária.

Também conhecido como “planilha de cálculo” ou “extrato evolutivo”, é um documento detalhado que mostra, linha por linha, como sua dívida se transformou ao longo do tempo. Ele é um verdadeiro “raio-X” do seu débito.

Ele deve conter, no mínimo:

O valor principal original que foi emprestado.

A taxa de juros remuneratórios (a taxa do contrato) aplicada mês a mês.

Os juros de mora e a multa por atraso, quando houver.

A ocorrência de capitalização de juros (o famoso “juros sobre juros” ou anatocismo).

Todas as amortizações (pagamentos parciais ou de parcelas) que você realizou.

Quaisquer outras tarifas ou encargos que foram adicionados ao saldo devedor.

│Mas por quê este documento é importante?

Transparência Total: Sem ele, você negocia no escuro. O banco informa um saldo devedor de “X”, e você não tem como saber se aquele valor está correto. O demonstrativo expõe exatamente como o banco chegou àquele número.

Identificação de Abusos e Ilegalidades: Este é seu principal uso estratégico. Com o demonstrativo em mãos, um profissional (advogado ou contador) pode facilmente identificar:

Juros Abusivos: Comparar a taxa aplicada com a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central para operações da mesma natureza. Se a sua taxa for muito superior, ela pode ser considerada abusiva.

Capitalização de Juros Ilegal: Verificar se a cobrança de juros sobre juros estava prevista no contrato e se a periodicidade (mensal) é legal para aquele tipo de operação.

Cobrança de Tarifas Ilegais: Identificar a inclusão de taxas que não poderiam ser cobradas.

Cálculo Incorreto: Erros matemáticos na aplicação dos encargos.

Aumenta seu Poder de Barganha: Ao identificar irregularidades, você ganha um poder de negociação imenso. Você pode argumentar com o banco: “Verifiquei no demonstrativo que a taxa de juros está acima da média do BACEN” ou “A capitalização de juros não foi contratada, portanto, o saldo devedor real é menor”. Isso muda o jogo.

Peça Essencial para Ação Judicial: Caso a negociação amigável não funcione, nenhum advogado especialista conseguirá ajuizar uma ação revisional de contrato de forma eficaz sem este documento. Ele é a prova material das possíveis ilegalidades.

│Como Solicitar o Demonstrativo?

O banco é obrigado a fornecer este documento.

Canais Comuns: Tente primeiro pelo gerente, aplicativo ou central de atendimento. Peça formalmente o “Demonstrativo de Evolução da Dívida” ou a “Planilha de Cálculo do débito”.

Ouvidoria (Ouvidoria): Se os canais comuns negarem ou demorarem, entre em contato com a ouvidoria do banco. Guarde o número de protocolo.

Banco Central: Se a ouvidoria não resolver, registre uma reclamação formal no site do Banco Central. Isso costuma ter um efeito rápido, pois os bancos são fiscalizados e precisam responder à autarquia.

│A Negociação (Conversa com o Banco)

Com as informações em mãos, é hora de contatar a instituição.

Canais de Negociação:

Gerente da Conta: Pode ser um bom primeiro passo para dívidas menores.

Centrais de Negociação: Os bancos possuem setores específicos, via telefone ou WhatsApp, focados em renegociação.

Plataformas Online: Sites como Serasa Limpa Nome e acordos online oferecidos pelo próprio banco costumam apresentar propostas pré-aprovadas, geralmente com bons descontos para pagamento à vista.

Estratégias e Postura:

Mantenha a Calma: Seja educado, mas firme.

Não Aceite a Primeira Oferta: A primeira proposta raramente é a melhor. Demonstre que você analisou a dívida e que busca uma condição mais justa.

Tenha uma Proposta Clara: Com base na sua capacidade de pagamento, apresente sua própria proposta. Ex: “O valor da parcela ideal para mim é de R$ 100,00”.

Peça Descontos: Para pagamentos à vista (em parcela única), os descontos sobre juros e multas podem ser muito significativos, chegando a mais de 90% em alguns casos.

Formalize TUDO: Jamais aceite um acordo verbal. Exija que o banco envie o boleto e o termo de transação (o contrato do acordo) por e-mail, detalhando o valor, as parcelas e a informação de que, após o pagamento, a dívida original estará quitada.

Dúvidas Mais Frequentes

Não para sempre, mas há um impacto temporário. Ao quitar a dívida com desconto, o banco é obrigado a remover seu nome dos órgãos de proteção ao crédito (como SPC e Serasa) em até 5 dias úteis após o pagamento da primeira parcela ou da parcela única. No entanto, o seu histórico de relacionamento com aquele banco é afetado. Mais importante, essa negociação com desconto para quitação será registrada no Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central, popularmente conhecido como “listão do BACEN”. Outros bancos verão que você teve uma dívida que foi quitada por um valor menor que o original, o que pode dificultar a obtenção de novos créditos por um período. Contudo, essa restrição interna não é eterna e é muito melhor quitar a dívida qdo que permanecer negativado.

O banco não é obrigado por lei a aceitar a sua proposta, mas tem todo o interesse em negociar para receber o valor. O que o banco não pode fazer é te obrigar a aceitar uma proposta que não cabe no seu bolso. A negociação deve ser um acordo entre as duas partes. Se o banco se mostrar inflexível ou apresentar apenas propostas abusivas, recuse. A recusa do banco em oferecer condições razoáveis pode, inclusive, ser um argumento a seu favor em uma futura ação judicial, demonstrando sua tentativa de resolver a questão amigavelmente.

Financeiramente, pagar à vista com desconto é quase sempre a melhor opção. O desconto oferecido para quitação em parcela única costuma ser muito agressivo, eliminando grande parte dos juros. Ao parcelar, o valor total pago ao final será maior, pois novos juros são embutidos no acordo. No entanto, a resposta ideal depende da sua realidade. Não adianta conseguir um desconto de 90% se você não tem o dinheiro para pagar. É melhor aceitar um parcelamento que você consiga honrar do que se comprometer com um pagamento à vista que o fará se endividar novamente. Avalie seu orçamento com sinceridade.

Sim e não. Essa é uma das maiores fontes de confusão. Após 5 anos, o seu nome deve ser retirado dos cadastros de inadimplentes como SPC e Serasa (a dívida “prescreve” para fins de negativação). Porém, a dívida não deixa de existir. O banco perde o direito de te processar para cobrar a dívida (prescrição da pretensão de cobrança), mas ele ainda pode realizar cobranças extrajudiciais (por telefone, carta, etc.) e a dívida continua existindo no sistema do banco e no SCR do Banco Central, afetando seu score e acesso a crédito. Portanto, a dívida não “some”. O que ocorre é que seu nome não estará mais negativado publicamente.

Não necessariamente, mas depende da complexidade. Para negociações diretas, especialmente através de feirões online (como o Serasa Limpa Nome), você pode fazer o acordo por conta própria com segurança. Contudo, se a dívida for alta, se você suspeita que há muitas irregularidades (juros abusivos, taxas ilegais), ou se o banco está irredutível, a ajuda de um advogado especialista é fundamental. Ele poderá solicitar o Demonstrativo de Evolução da Dívida, identificar abusos, recalcular o valor justo do débito e, com isso, ter um poder de barganha muito maior na negociação ou, se necessário, ingressar com uma ação revisional.

Depende. Para que o banco possa tomar seus bens ou penhorar parte do seu salário, ele precisa primeiro entrar com uma ação judicial de cobrança ou execução e obter uma decisão favorável de um juiz. O banco não pode simplesmente “decidir” fazer isso por conta própria. Vale lembrar que o salário, em sua maior parte, é impenhorável (protegido por lei), e o “bem de família” (o único imóvel onde você reside com sua família) também possui proteção legal contra penhora por dívidas bancárias. Portanto, ameaças de penhora imediata feitas por escritórios de cobrança são, na maioria das vezes, apenas uma tática de pressão ilegal.

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